Design

Conexão FOR-LIS com Ângelo e Susana, do A Avó Veio Trabalhar

1 mês atrás

O nome do projeto já aquece o coração e desperta a curiosidade: A Avó Veio Trabalhar (@aavoveiotrabalhar). Nos bastidores, o psicólogo Ângelo Campota e a designer Susana António comandam a Fermenta, organização a qual A Avó faz parte. A ideia nasceu há seis anos, quando a dupla trabalhava em outra iniciativa na capital portuguesa, e teve como ponto de partida o desejo de criar algo deles, pensado do início ao fim. “A fermenta nasceu e depois veio A Avó, para estimular mais os velhos e fazê-los acreditar neles mesmos”, conta Susana. Hoje, o projeto conta com 70 avós participantes.

E de onde vem o nome? “Quando as pessoas se formam, aquilo vira uma parte da identidade delas. Para nós, o trabalho não está só no trabalho voluntário, mas também de valor à comunidade. Vamos trabalhar até o fim das nossas vidas, porque sempre precisamos de valores e significados”, explica a designer. O projeto nasceu em uma das cidades mais envelhecidas da Europa e a tendência é tornar-se ainda mais velha. Aí veio o questionamento: como pessoas com mais de 60 anos poderiam ocupar seu tempo da melhor forma e com qualidade?

“Assim, nossa ideia foi criar uma linguagem disruptiva, para retirar essas pessoas da zona de conforto. E uma das máximas que alimentamos desde o início é que a avó vai trabalhar para poder brilhar e sonhar aos 60, 70, 80, 90 anos, aliando aos sonhos qualidade de vida”, conceitua ngelo. Se pararmos para pensar, uma pessoa de 65 anos pode ter ainda 35 anos de vida!

Vovós ao trabalho!

No A Avó Veio Trabalhar, as avós executam trabalhos manuais, como bordados e crochês, atentando-se também para aos diálogos e à conscientização do envelhecimento otimista, algo desafiador para as avós. Por isso, elas nunca fazem as mesmas coisas e podem frequentar o espaço com total liberdade, montando seus próprios horários e definindo suas frequências. No local, elas escolhem fazer ou não parte dos projetos do momento e das coleções autorais da marca, lançadas em um intervalo entre quatro e seis meses. “É um desafio de criação, de trabalho em equipe para definirmos o que vamos fazer, quais técnicas vamos usar, quais tendências, formatos e dimensões vamos seguir… Depois que chegamos a um acordo, criamos o protótipo”, explica a designer. O processo criativo conta com a direção da dupla, mas sempre ouvindo as ideias das avós.

“Normalmente as peças têm sempre um componente criativo e único de cada uma das avós e têm sempre a etiqueta com o nome de quem fez, que é um lado empoderador”, diz Susana. Os lançamentos das coleções, como a designer explica, são sempre fora da loja, em locais que geralmente as avós não frequentam, como lojas e museus, e elas escolhem quem vai falar com clientes e imprensa. “Elas gostam e nem se reconhecem nessas fotografias, com suas belezas enaltecidas para si, familiares, amigos e até outras avós. Elas se olham de outra maneira.”

Já com os parceiros, o processo é um pouco diferente, conforme explica a designer: “É como se tivéssemos um escritório de design criativo, que pode ser de produtos, performances, eventos. Costumamos aceitar todos os desafios. É importante tirar as pessoas da sua zona de conforto e só crescemos quando somos desafiados. Às vezes tem o medo… E, na verdade, quando nossas avós passam por isso, elas ficam maiores e passam a olhar para elas próprias com outros olhos. Afinal, ainda tem muito tempo pela frente. São grandes desafios!”

Ajuda mútua

As avós chegam no local em diversas situações, mas a mais comum é a de viuvez, ainda vivenciando o luto e, consequentemente, mais fechada e introspectiva. “Elas chegavam muito depressivas, sem vontade de continuar. E as outras avós têm esse efeito contagiante, de felicidade e inspiração”, descreve ngelo. Assim, elas começam a se enturmar e a criar uma rede de suporte, que faz com que elas se sintam valorizadas e acompanhadas, mesmo na tristeza.

“Elas chegam parecendo diamantes brutos e são lapidadas à medida que têm contato não só comigo ou com a Susana, mas também com as outras avós. E passam por imersões pessoais: autoestima, autoconhecimento, das rugas… Quando fazemos parcerias com marcas e vídeos publicitários, o que eles procuram é a valorização da avó como ela é: idade, beleza, segurança… E isso altera a autoestima delas”, completa o psicólogo.

Às vezes, o impacto do trabalho com as avós é, no bom sentido, avassalador, conforme explica Susana. “O que nós damos, volta em ricochete, 10 vezes mais ‘forte’. Ouvimos dos familiares que suas avós não são mais as mesmas”, conta. E, diante dos trabalhos e dos resultados, é comum a dupla ouvir também dos mais jovens que, quando forem velhos, querem ser assim. “É mudar paradigmas. Porque ser velho não é nada de mais. É, no fundo, um privilégio que temos. Ter uma população envelhecida não é um problema, o problema é que tratamos todos os velhos como pessoas que já não tem mais nada pra dar.”

Avós de quarentena

Com o lockdown, o maior desafio da dupla foi descobrir como manter a relação com as avós dentro de casa. Assim, eles criaram um kit para elas trabalharem de suas residências. “Não é a mesma coisa, mas pelo menos ajudamos e fazemos com que elas pensem que, um dia, irão regressar ao projeto e que tudo vai terminar”, comenta a designer. O kit fez tanto sucesso que conquistou também um público mais jovem. Atualmente o projeto segue aberto, mas seguindo as normas de segurança, limitando a quantidade de avós por horário.

Por fim, Susana deixa um recado: “Quando nós, gerações mais novas, dizemos que elas têm que ficar em casa porque isso tudo vai passar, esquecemos que o tempo para pessoas mais velhas não é o mesmo. Muitas delas não estarão aqui em um ano. E elas podem falecer de tristeza. É preciso uma sensibilidade para perceber esses fatos. Por isso que eu não critico quando algumas de nossas avós ficam de um lado para o outro. A gente dá conselhos de segurança, de higiene, perguntamos como elas estão, mas cada um sabe da sua saúde mental. Para elas, é muito difícil não receber um toque, um sinal de afeto.”

Crowdfunding

A Avó Veio Trabalhar segue com um crowdfunding de apoio, que pode ser acessado pelo site: http://ppl.pt/causas/avo. “Temos muita vontade de trabalhar, queremos muito continuar de portas abertas, mas a pandemia virou tudo de cabeça para baixo. Porém, não vamos desistir, sabemos que precisamos continuar lutando.”, finaliza o psicólogo.

by Larissa Viegas

Publicado em:

11 de dezembro de 2020

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