Gisela Schulzinger

10 meses atrás

Gisela Schulzinger, presidente da ABRE, é referência em inovação

Presidente da Associação Brasileira de Embalagem (ABRE), fundadora da Haus – cultura da Inovação com Propósito, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)… Gisela Schulzinger até dispensaria apresentações, mas é o seu profissionalismo, o seu desejo de inovar e o interesse em estar sempre compartilhando conhecimentos que a tornou uma referência no mercado. E, por isso, é a nossa escolhida para dar o “ponta pé” inicial nas entrevistas que estarão por aqui.

Na entrevista com a Magic Think, Gisela fala sobre o atual cenário do design brasileiro, as transformações no mundo das embalagens e, principalmente, de pessoas. Do investidor brasileiro aos criativos do Vale do Silício. Confira!!

 

 

#1 – Você acha que hoje o design já consegue ser visto com outros olhos, com sua real função?

Não. Acho que o que começa a acontecer é uma aproximação com os conceitos do design, do ponto de vista do mundo dos negócios. Talvez em outras esferas, sim. Do ponto de vista dos negócios, as pessoas estão querendo entender melhor o que é o design, o design estratégico. Ele como estético, gráfico, embalagem, é superassimilado, todo mundo entende perfeitamente.

O país que é mais ligado aos negócios e está sempre buscando novas ferramentas é os Estados Unidos. Mesmo na Itália, que a estética é forte, nas organizações ele já é mais entendido, porque há mais tempo convive com o conceito. Na Alemanha, o design é estrutural, para os negócios, para pensar como solução. Então acho que já andou bem mais nos outros países. O Brasil, a América Latina, tá no processo.

 

 

#2 – Você foi a primeira designer mulher a assumir a presidência da ABRE. Como você vê isso?

Acho que isso é um retrato dos nossos tempos. Acho que é a própria necessidade do setor renovar, levar frescor para os movimentos, porque, de fato, é um setor masculinizado. Não acho que me escolheram porque sou mulher, mas por ter conceitos ligados a uma visão mais inovadora, contemplativa dos negócios e das possibilidades de desenvolvimento. Ainda é um setor muito tradicional. Por eu falar de inovação e processos, casou uma com a outra. Por coincidência, sou mulher.

 

 

#3 – Quais mudanças você já percebeu no setor de embalagens desde que você assumiu o cargo?

Percebi movimentos, não mudanças. Até mesmo pelas necessidades exigidas desses novos tempos. Nesses últimos quatro anos que eu fiquei na ABRE, a gente impulsionou muito isso. Foi a agenda da ABRE, em função da minha profunda crença de que essa seria a única possibilidade da gente continuar competitivo, manter relevância nos negócios e isso pra qualquer setor. E a gente conseguiu provocar alguns movimentos, algumas reações. Acho que as mudanças ainda estão por vir. As embalagens estão caminhando, acho que está bem mais adiantado do que há quatro anos. Nessa provocação que a gente trouxe de dar acesso às novas possibilidades, quase pegar na mão e dizer o que é preciso ver, conviver… Como o projeto da Endeavor, de visitas ao Vale do Silício. São iniciativas que provocam mais, que chegam junto aos ecossistemas.

 

 

#4 -Você fala que inovação é sinônimo de pessoas. O quanto a criatividade delas é importante para o setor de embalagens?

A criatividade não é só para o setor de embalagens, mas é fundamental para ele. Tem um ditado que eu gosto que diz que a inovação vem da pessoa. As empresas mudam quando as pessoas mudam. São as pessoas que buscam movimento e entendem as circunstâncias. O otimista encara os obstáculos e vai atrás de soluções. Isso vai desde as equipes até os grandes gestores das empresas. Aqueles que acreditam que esses movimentos são válidos, sabem que tem que ter uma legião de gente para fazer junto. Ninguém faz nada sozinho, o processo é colaborativo, de cocriação e com a participação do consumidor, claro.   

Cada vez que eu vou ao Vale do Silício, confirmo isso. Ele vai além de um lugar de tecnologia. É muito mais um lugar de pessoas empoderadas para fazer acontecer. A gente tem a ilusão do dinheiro, mas lá não tinha nada, não existia nada há alguns anos. Foram as pessoas, impulsionadas pelo que acreditavam, que transformaram o que é hoje. Vejo dentro das organizações que atuo que a gente precisa convencer as pessoas a assumirem riscos, posições e fazerem as coisas acontecer. Isso está muito ligado à essência das pessoas, de, apesar dos obstáculos, das dificuldades, continuarem.

No Vale do Silício, os grandes investidores olham tanto a ideia quanto o empreendedor e a sua capacidade de realizar, inovar, organizar,  implementar, trazer resultados, juntar pessoas, mobilizar a equipe…

 

 

#5 – O que ainda falta no empresário brasileiro? Você acha que ele ainda tem medo de apostar na criatividade?

Ele tem medo de apostar no que ele não conhece, que não tem 100% de certeza de que vai acontecer. E já é um pressuposto contraditório de qualquer processo de inovação. Medo de errar, de tentar e querer ter certeza, isso é inversamente proporcional ao que é inovação, arriscar, tentar várias vezes, aprender com o erro. Se você quer inovar, quer impactar a vida das pessoas, acreditar que é uma “Eureka”, tem que arriscar. E isso falta muito, muito, muito, inclusive na mentalidade dos investidores, não só dos empresários. Tanto que tem vários empreendedores que buscam dinheiro lá fora. Aqui não falta de dinheiro, mas mentalidade de tomar riscos. Há vários formatos de investimento, mas não há coragem. Principalmente das organizações para as startups e a inovação. E o que caracteriza a startup é algo de alto grau de incerteza.

 

 

#6 – Hoje, qual é a importância da embalagem para o mercado?

Ela tem várias questões. Hoje ela é muito mais do que um invólucro para produtos ou uma coisa que protege e acondiciona um produto. Eu digo que ela passou a ser uma ferramenta de comunicação, uma grande plataforma de possibilidades, porque você pode usá-la para passar conceito, estratégias da empresa.

Você pega uma embalagem pensada para a sustentabilidade, como a Clever Little Bag, da Puma. Ela materializa o conceito, a mensagem, a ideia da empresa. E também tem a construção da identidade, principalmente dos produtos que não têm como fazer uma comunicação. A embalagem do Red Bull, por exemplo, é muito mais sobre a ideia do que o produto em si.

A embalagem é também uma poderosa ferramenta de branding, porque mais que identidade, ela também tem toda a mensagem, e é um ponto de contato superimportante para o consumidor. Hoje é tudo muito efêmero, intangível. Ali é o momento de tangibilidade, de conceitos, linguagem.

 

 

#7 – Para você, qual é a importância do design ir além do eixo Rio – São Paulo?

Eu admiro tanto o trabalho de vocês da Abracadabra e acho fundamental. Um dos meus grandes desafios nesses anos é chamar a associação para as atividades fora de São Paulo. A gente precisa desses parceiros, dessas competências de fora. A indústria não tá mais lá, mas a criativa está. Acho que a atuação fora de São Paulo, como da Abracadabra e várias em outros estados é fundamental para ter um desenvolvimento mais nivelado em todo Brasil, com outros modos de ver as coisas. Conversar com o nordeste é completamente diferente. É outra visão de mundo, outra realidade. Na Abedesign a gente teve essa grande preocupação, de identificar em outras partes do Brasil o design e as pessoas que podem atuar na própria região para fazer as coisas acontecerem, principalmente com o design. Não só na corporação, mas para o desenvolvimento local também. É fundamental, a gente precisa. Fica cansativo, limitado, viciado quando tá em um só lugar. Se conectar com o resto do Brasil é fundamental. E esse é um grande desafio para a ABRE.

 

#8 – Três dicas:

Clever Little Bag

Embalagem icônica?

Clever Little Bag

Truck Pad

Startup?

Truck Pad

Organizações Exponenciais

Livro?

Organizações Exponenciais

Embalagem icônica – Qualquer uma que tenha sido pensada através da ideia da economia circular. Pensar nas melhores práticas em cada etapa,chegando no melhor resultado de sustentabilidade, como a Clever Little Bag, da Puma.

Startup – Truck Pad. É 100% nacional. Sempre cito ela porque é de um setor supertradicional, de tecnologia de rastreamento, mas envolve o caminhoneiro, é tipo um Uber de caminhoneiros. Entrou no mercado com uma ideia muito nova e desbancou mitos como “caminhoneiro não tem internet, não fica no celular”. Eles começaram em 2009 e a ideia foi concretizada em 2015. Hoje recebeu aporte e parte dela foi comprada pela Mercedes Benz alemã.

Livro – “Organizações Exponenciais”, de Salim Ismail,‎ Michael S. Malone e‎ Yuri Van Geest, um livro que dá uma perspectiva muito clara dessa exponencialidade do crescimento por causa das tecnologias e como impacta nos negócios no mundo. Outros dois são o “Plataforma – a revolução da estratégia”, de Geoffrey Parker e o “Estratégia do Oceano Azul”, de W. Chan Kim.

Publicado em:

18 de junho de 2018

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